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Empreendendo Ideias: Parte I


por Cecília Häsner

A i·dei·a[1] vem do grego idéa, e significa aparência, maneira de ser, estilo, e segundo o dicionário Aurélio de língua portuguesa, é uma representação que se forma no espírito, ou uma percepção intelectual, um pensamento, um plano, intenção, fantasia. Neste sentido, a ideia representa algo abstrato, não tangível e sem valor comercial. Para que uma ideia tenha valor, ela deve ser transformada em algo mais concreto: seja um projeto, esquema, um novo empreendimento, produto ou serviço. Isto requer pressupostos: a ideia deve ser boa e original, deve ser validada para garantir que tenha sucesso comercial e deve ser protegida (esquema 1).

Esquema 1: Representação esquemática dos principais pontos a serem contemplados para empreender ideias.

Fonte: Autoria própria.

 

Uma boa ideia requer minimamente de alguns atributos: ela deve abordar soluções de um problema ou deve contemplar melhorias de um produto/serviço; ela deve vislumbrar novas oportunidades no mercado e, de preferência, ter aplicabilidade. Ademais, a ideia deve ser validada, ou seja, deve ser realizada uma análise enquanto a sua originalidade,  se já existe algo similar (tanto no local onde se pretende explorar a ideia como em outros países), identificar quem é o público alvo (público consumidor ou usuário do serviço), se o público alvo está disposto a pagar o preço do produto/serviço e porque escolheria seu produto/serviço no lugar de outro similar.

O segundo ponto é analisar se a ideia é viável. Recomenda-se também que seja realizado uma pesquisa de mercado, em um grupo pequeno de pessoas (por exemplo, através de enquete veiculada por WhatsApp) para ter um feedback sobre sua ideia, coletando todas as críticas, sugestões e opiniões ao respeito. Dessa forma, se tem maior garantia de que a ideia tenha apelo comercial.

Chamaremos de “ideia” o relato ou descrição da ideia, que foram utilizados na análise de originalidade e viabilidade da ideia.

O terceiro ponto se refere a proteção da “ideia”, de forma a agregar valor e garantir a exclusividade comercial do seu novo produto/serviço. Em muitos casos, o que impede você de lançar seu novo produto ou serviço é relacionado com o medo de contar a alguém sobre sua ideia e imaginar que ela possa ser “roubada” ou utilizada por outros de forma indevida. Neste sentido, a propriedade intelectual tem um papel importantíssimo. As formas de proteção intelectual variam, dependendo das características de sua “ideia”, podendo incluir as patentes de invenções ou modelos de utilidade, marcas, desenho industrial, programas de computador ou registro dos direitos autorais. A plataforma digital do Prosur Proyecta[2] disponibiliza todos os aspectos da propriedade intelectual (esquema 2), de forma interativa, facilitando o usuário a compreender os diferentes mecanismos que permitem materializar os ativos intelectuais e industriais de uma empresa ou instituição.

Esquema 2: Representação de todas as formas de proteção intelectual dos ativos intangíveis.

Fonte: Prosur Proyecta (www.prosurproyecta.org).

 

Além das formas de proteção intelectual, é recomendável que nos primórdios, antes que você saiba até que ponto sua ideia é viável e se pode aplicar algumas das formas de proteção intelectual, você tenha um acordo de confidencialidade e sigilo assinado entre os desenvolvedores e colaboradores de modo a deixar claro quem é o proprietário da “ideia” e as consequências legais do seu uso indevido. É bom lembrar que estes acordos nunca são estanques e não podem ser aplicados contra alguém que teve a mesma ideia de forma independente (sempre que tenha provas disso), mas pelo menos eles mostram que a intenção era manter a ideia em segredo para preservar seus direitos de patente ou qualquer outro direito de propriedade intelectual.

Na maioria dos casos uma “ideia” gera mais de uma propriedade intelectual, assim ao empreender uma ou mais ideia a empresa geram um portfólio de propriedades intelectuais, o que agrega mais valor a empresa. Sejam grandes ou ascendentes (startup), este portfólio deve estar alinhado à sua estratégia de negócios. Por exemplo, o Facebook nasceu da ideia de um serviço interno de comunicação social e se expandiu de tal forma que provocou o fim do Orkut em 2014. A empresa Facebook Inc. foi a 5ª empresa mais valiosa no mercado dos Estados Unidos em 2018, apesar da queda das ações na bolsa de valores, a qual conta com diversos produtos: Facebook, Instagram, Messenger, WhatsApp e Oculus. Para estabelecer e proteger os direitos de propriedade, o Facebook Inc. conta com uma combinação de patentes, marcas, direitos autorais, segredos comerciais, incluindo know-how, contratos de licença, procedimentos de confidencialidade, acordos de confidencialidade com terceiros, divulgação de funcionários e acordos de atribuição de invenção e outros direitos contratuais. O valor líquido dos ativos intangíveis em 2018 chegou a US$ 1,29 bilhões[3]. No entanto, nesse balanço estão inseridos os investimentos em aquisições de patentes e marcas: onde só 2018 foram investidos US$ 240 milhões na aquisição de patentes e US$ 112 milhões na aquisição de marcas. A aquisição pelo Facebook de 650 patentes da AOL e da Microsoft foi uma medida estratégica para proteger-se dos processos por violação de patentes apresentados no passado pelo Yahoo, mas também para desenvolver um portfólio robusto para se defender de outros concorrentes em potencial, à medida que seu modelo de negócios cresce e gira potencialmente.

Entre os relatos de casos de sucesso que utilizam a propriedade intelectual para atrair mercado está a indústria automobilística da Audi e da Porsche[4]:

  • O uso de patentes em marketing foi feito de maneira excelente pela Audi, que usou essa técnica em sua campanha do modelo A6. Os anúncios afirmavam que havia registrado mais patentes durante a criação do Audi A6 do que a NASA havia arquivado em seu programa espacial, uma pequena e inteligente técnica de propaganda que fez a Audi parecer mais inteligente, mais confiável e mais inovadora do que seus competidores.
  • A Porsche usa isso com ótimo efeito. Embora seja um líder global na fabricação de carros esportivos, ele aproveita sua propriedade intelectual não apenas para aumentar os lucros das vendas de carros, mas também através de licenciamento de suas patentes e marcas. É por isso que você pode comprar relógios, torradeiras e chaleiras da marca Porsche, enquanto a Porsche efetivamente multiplica as receitas geradas por sua marca e suas produções intelectuais.

Podemos concluir que não basta ter ideias para empreender um novo negócio, deve-se trabalhar para que garantir que sejam boas, viáveis e protegidas.

“Ao iniciar uma ideia, você precisa de todas as vantagens que conseguir, por isso deixe sua propriedade intelectual falar por você” (Carel Smit)

 

Cecília Häsner é sócia diretora da Prospective Inovação Tecnológica e Ambiental.

 

Os conteúdos e as opiniões aqui publicados são de inteira responsabilidade dos seus autores. O Sistema FINDES (IDEIES, SESI, SENAI, CINDES e IEL) não se responsabiliza por esses conteúdos e opiniões, nem por quaisquer ações que advenham dos mesmos.

 

[1] Dicionário: “ideia”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://dicionario.priberam.org/ideia [consultado em 19-03-2019].

[2] A plataforma foi criada no âmbito do Prosur, projeto que reúne treze países da América Latina: Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Nicarágua, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai e conta com o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI). Mais informações no site: www.prosur.org

[3] Annual Report 2018 – Facebook Inc.

[4] Texto extraído do artigo “Using Your Intellectual Property to Escape the 9-to-5”, de Carel Smit, Entrepreneur, outubro 2017. Disponível em: https://www.entrepreneur.com/article/302701

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