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Transições Tecnológicas e Seleção de Tecnologias


por Érika Leal

Conceitos básicos

  • Configurações Sociotécnicas: Processo pelo qual as funções sociais como transporte, comunicação e habitação são alcançadas.
  • Nichos Tecnológicos: Espaços de criação de inovações radicais.
  • Paisagem Sociotécnica: Metáfora utilizada para representar a estrutura externa ou o contexto para a interação dos atores.
  • Regimes Sociotécnicos: conjunto de regras semi-coerente realizadas por diferentes grupos sociais.
  • Regimes Tecnológicos: Processo resultante do compartilhamento de rotinas semelhantes entre engenheiros e empresas.

Desde  segunda metade do século passado, uma série de questões como a mudança climática, a poluição do ar, das águas e a escassez de recursos naturais vêm provocando gradualmente alterações no padrão de comportamento social. A sociedade tem buscado  respostas a essas questões incentivando o desenvolvimento de tecnologias limpas, mudanças nos meios de transportes, dos sistemas de alimentos e de energia. Novas tecnologias,  novos modos de governança são introduzidos e políticas públicas são direcionadas para incentivar as inovações que são fundamentais para alcançar a sustentabilidade.

Recentemente, essas questões tem sido tratadas como Transições Tecnológicas (Technological Transitions), um conceito que foi definido por Gells  (2002) como amplas transformações tecnológicas na forma como funções sociais tais como transporte, comunicação, habitação e alimentação são realizadas/alcançadas. Transições Tecnológicas (TT´s) não envolve apenas mudanças tecnológicas, mas também mudanças nas práticas dos usuários, na regulação, na rede de indústrias, infraestrutura e significados simbólicos. Trata-se de mudanças tecnológicas de longo prazo e desenvolvimento tecnológico em larga escala.

O processo de TT´s foi alicerçado sobre a economia evolucionária que remonta da obra de Nelson e Winter (1982). Para estes autores, o sistema econômico é um sistema aberto,  dinâmico e evolucinário, se aproximando das ideias da teoria da evolução, de Charles Darwin.

A economia evolucionária utiliza diversos termos da teoria da evolução, como por  exemplo processo de variação, seleção, retenção, entre outros. Gells (2002) mostrou que a economia evolucionária destaca os processos de variação e de retenção de tecnologias e eles são bem discutidos, mas quanto ao processo de seleção, a teoria evolucionária mostra que o mercado é o lócus privilegiado da seleção, sem maiores desdobramentos dessa função.

Então, numa perspectiva multinível, como a ilustrada na Figura abaixo, fazendo uso dos conceitos de paisagem sociotécnica, configurações de regime/configurações sociotécnicas e nichos tecnológicos queremos aqui brevemente discorrer acerca do amplo processo de seleção de tecnologias, em que as decisões políticas e as instituições têm um papel importante, como também a infraestrutura, cultura e manutenção de redes.

Ou seja, a ideia é que nos processos de grandes mudanças tecnológicas, não é somente a parte técnica que importa, mas também os elementos sociais em torno disso.  Isso é o que chamamos de mudança sociotécnica, um processo de associações e substituições, uma recriação de elementos. Mudanças em um elemento na rede podem desencadear em outros elementos.

Esses elementos técnicos e também sociais estão ligados ao conceito de regimes tecnológicos, por exemplo, na medida em que os engenheiros e as empresas compartilham rotinas semelhantes, eles formam um regime tecnológico e, nesse sentido, passam a pesquisar numa mesa direção. Quando todos pesquisam na mesma direção, criam-se trajetórias tecnológicas, isto é, os possíveis caminhos por onde a tecnologia pode seguir.

Mas não podemos pensar que essas trajetórias são influenciadas apenas por quem produz a tecnologia:  elas são influenciadas também pelos usuários, pelas políticas de mercado, por grupos sociais, por cientistas e até mesmo pelo capital financeiro, entre outros. Nesse sentido, devemos falar também em “regimes sociotécnicos” para dizer que não só as questões técnicas mas também as sociais interferem na trajetória das tecnologias.

Por permitir orientação e coordenação das atividades de um grupo relevante de atores, os regimes sociotécnicos explicam a estabilidade das configurações sociotécnicas. No entanto, cabe ressaltar que esta estabilidade é do tipo dinâmica, isto é, inovações ainda ocorrem, mas de natureza incremental. Em termos da economia evolucionária, regimes sociotécnicos (com seus múltiplos atores) funcionam então como mecanismos de seleção e retenção de tecnologias.

As trajetórias tecnológicas representam nesse contexto uma paisagem sociotécnica. A metáfora paisagem é utilizada pela conotação literal de relativa rigidez no contexto material da sociedade.

A rigidez material pode ser bem visualizada, por exemplo, no nosso sistema de rede de transporte pessoal.

Infraestruturas rodoviárias e regulamentação do uso do automóvel são construídas e mantidas por órgãos federais e estaduais relacionados à infraestrutura e transporte, bem como por legislações específicas. Significados culturais e simbólicos dos carros são produzidos na interação entre usuários, mídia e grupos sociais.

Práticas e padrões de mobilidade do usuário emergem do uso diário de carros. A estrutura da indústria é resultado de posicionamento e estratégias dos fabricantes de automóveis e de seus fornecedores. O conhecimento tecnológico incorporado nos carros é criado por designers e engenheiros, enquanto que os carros e os acessórios são produzidos pela rede de empresas do setor.

Os elementos e as ligações dessa rede são resultado de atividades de grupos sociais que se reproduzem.  As inovações geralmente ocorrem nessa rede, mas de natureza incremental. As atividades desses diferentes grupos são alinhadas entre si e coordenadas, de forma que mudanças nessa rede são graduais, porque dependem da interação dos atores nela envolvidos.

O leitor atento poderia então perguntar: e as inovações radicais? Onde elas acontecem? Para responder a essa pergunta é preciso inserir outro conceito nessa análise que trata dos nichos tecnológicos. Os nichos são os espaços privilegiados para o surgimento das inovações radicais. Essas inovações são fundamentais para alcançarmos a sustentabilidade. Os nichos coexistem com o regime padrão dominante e são necessários para promover o rompimento com tal regime. A passagem do nicho para o regime não ocorre repentinamente, mas gradualmente.

As TT´s ocorrem como resultado das relações entre desenvolvimento em múltiplos níveis (como ilustrado na Figura abaixo). Inovações radicais rompem as fronteiras dos nichos, e os processos, nos níveis do regime e paisagem, criam as janelas de oportunidade. Essas janelas de oportunidades podem ser criadas por tensões nos regimes sociotécnicos ou por mudanças na paisagem que pressionam o regime.

figura 1

Nos últimos anos, este modo de pensar sobre os amplos processos de mudança tecnológica inserindo parâmetros sociais, econômicos e institucionais têm atraído atenção no campo dos estudos sobre ciência, tecnologia e inovação (C,T&I).

O Journal Research Policy (2010, Vol. 39, 4) dedicou uma sessão especial para os trabalhos de Inovação e Transições Tecnológicas e os artigos mais citados desse periódico nos últimos cinco anos exploram os desafios dos Governos nos tempos dessas transições (KERN, 2012).

Não apenas na comunidade científica, mas observa-se também que essas questões têm orientado os discursos e ações de diversos formuladores de políticas comprometidos em enfrentar a tarefa complexa de lidar com os desafios de contribuir para direcionamento da seleção de tecnologias em tempos de fortes transições tecnológicas.

Desafios que também devem ser enfrentados pelo Governo e sociedade capixaba. Nossa expectativa é de que todo o movimento concretizado na inauguração do Findes Lab, no lançamento do Manifesto para a Inovação e na sinalização do Governo em manter o apoio institucional e financeiro à ciência, tecnologia e inovação no Espírito Santo permitam aos atores envolvidos contribuirem para direcionarem a seleção de tecnologias que contribuam de forma sustentável para a solução de gargalos enfrentadas pela sociedade.

Referências:

GEELS, F.W. Technological transitions as evolutionary reconfiguration processes: a multi-level perspective and a case-study. Research Policy, v.31, n.8/9, p.1257–1274, 2002.

KERN, F. Using the multi-level perspective on socio-technical transitions to assess innovation policy. Technological Forecasting & Social Change, v.79, p.298-310, 2012.

NELSON, R.; WINTER, S. A Evolutionary Theory of Economic Change. Cambridge, Harvard University Press, 1982.

Érika Leal é Economista e Doutora em Engenharia de Produção. Professora da Coordenadoria de Engenharia de Produção do IFES e pesquisadora do Observatório do Desenvolvimento Capixaba.

Os conteúdos e as opiniões aqui publicados são de inteira responsabilidade dos seus autores. O Sistema FINDES (IDEIES, SESI, SENAI, CINDES e IEL) não se responsabiliza por esses conteúdos e opiniões, nem por quaisquer ações que advenham dos mesmos.

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