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Preço do petróleo: perspectivas atuais


por Thais Mozer

As intensificações dos conflitos geopolíticos em 2020 ocasionaram um aumento no preço do barril de petróleo neste primeiro mês do ano. Como consequência, houve o surgimento de suposições e dúvidas relacionadas ao acontecimento de uma nova crise do petróleo.

Mas, será que o aumento o preço do barril poderá ocasionar uma crise com efeitos semelhantes aos dos 1º e 2º choque do petróleo (respectivamente, década de 1970 e 1980)?

Antes de responder, serão apresentadas quatro mudanças importantes que diferenciam o período atual das décadas de 1970 e 1980.

  • 1º ponto:  O mercado financeiro aprendeu com as crises do petróleo das décadas de 1970 e 1980. A partir deste período, ocorreu o desenvolvimento dos mercados futuros (spot), as inovações nos instrumentos financeiros e as alterações na forma de comercialização do petróleo. Essas mudanças minimizaram os impactos da volatilidade do preço dessa commodity sobre as estratégias financiamento das empresas. Dessa forma, tornou-se mais difícil repetir o contexto financeiro dos dois choques do petróleo.
  • 2º ponto: Se comparado com as décadas 1970/80, hoje o mundo é menos dependente do petróleo do Oriente Médio. A menor dependência se deve ao fato dos Estados Unidos ter se tornado o maior produtor de petróleo mundial (15,3 milhões de barris/dia em 2018). O crescimento da produção norte-americana está relacionado ao início da exploração e produção do shale oil (petróleo não convencional). Como consequência, esse país reduziu a importação de petróleo, o que provocou uma redução de sua cotação.
  • 3º ponto: Os derivados de petróleo estão perdendo espaço na matriz energética para as fontes de energia mais limpas, como por exemplo, solar, eólica, hídrica e o gás natural. A Energy Internacional Agency estima que a participação das renovais na produção energética mundial cresça de 16,7% em 2020 para 27,7% em 2050, enquanto o petróleo perderá representatividade nesta produção (de 32,3% em 2020 para 26,6% em 2050).
  • 4º ponto: Desde as duas crises do petróleo também foram descobertas novas reservas provadas em países fora da região do Oriente Médio. Permitindo a redução da dependência mundial de petróleo dos países da OPEP. Logo, houve uma redução no poder de influência dessa organização sobre a formação dos preços desse hidrocarboneto. O Brasil é um dos casos em que ocorreu a descoberta de um grande reservatório de petróleo (pré-sal).

Voltando à questão inicial, se veríamos um novo choque do petróleo? Em virtude dos pontos apresentados, muito provavelmente, uma crise naquelas proporções não se repetirá na atual conjuntura mundial e brasileira.

Por falar em Brasil, devido aos efeitos das crises do petróleo, o país adotou uma política energética voltada para a diversificação da sua matriz energética, que era extremamente dependente do petróleo (para a produção de eletricidade e  nos transportes) na década de 1970/80[1]. Como resultado, 45,2% da oferta interna de energia era proveniente de fontes renováveis em 2018. Política energéticas com esse mesmo objetivo também foram e estão sendo adotadas por outros países.

E, com a descoberta do pré-sal, o país deixou de ser dependente da importação de petróleo (83,0% em 1980) e passou a ser um exportador líquido desse hidrocarboneto (-33,2%[2] em 2018). Dessa forma, o país tornou-se menos vulnerável aos efeitos negativos da volatilidade do preço dessa commodity. Entretanto, é preciso ressaltar que o país continua dependente da importação de derivados de petróleo, como a gasolina e o diesel.

Então, quais seriam os impactos do aumento do preço do petróleo para o Brasil? De imediato é preciso destacar que haverá efeitos positivos e negativos.

O aumento do valor do barril de petróleo elevará a arrecadação das participações governamentais (royalties, participações especiais e taxa de retenção de área) da união, dos estados e dos municípios. Caso os preços permaneçam em um patamar elevado, essa situação poderá estimular a expansão da produção de petróleo nacional.

Mas, como somos dependentes da produção externa de derivados do petróleo, o aumento do barril elevará a inflação no Brasil (custo do frete, no consumo de combustíveis pela população, preço de passagens e etc). Atualmente o Ministério de Minas e Energia estuda uma forma de compensar a possível elevação no preço dos combustíveis. Além disso, o aumento da incerteza global torna os investimentos mais cautelosos. E, esse fato refletirá no desempenho da economia brasileira.

Por tanto, caso ocorra um significativo aumento no preço do barril de petróleo, motivada pelos conflitos no Oriente Médio, haverá impactos na economia mundial. Mas, voltamos a reafirmar que os seus desdobramentos não provocarão uma 3º crise mundial do petróleo.

O Ideies lançará, no próximo mês de março, a 3ª edição do Anuário da Indústria do Petróleo do Espírito Santo.  Além dela, também será entregue a Rota Estratégica de Petróleo e Gás Natural 2035, no âmbito do projeto Indústria 2035.

Evolução do preço do barril de petróleo.

[1] Em 1979, o petróleo era responsável por 50,4% do total da oferta interna de fonte energética no país.

[2] Valores negativos correspondem a exportação líquida.

Thais Mozer é economista, mestre pela UFES e analista do IDEIES.

Os conteúdos e as opiniões aqui publicados são de inteira responsabilidade dos seus autores. O Sistema FINDES (IDEIES, SESI, SENAI, CINDES e IEL) não se responsabiliza por esses conteúdos e opiniões, nem por quaisquer ações que advenham dos mesmos.

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