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Mobilidade elétrica: realidade ou futuro distante?


por Mayara Bertolani

A mobilidade é tema de protagonismo quando o assunto é o acesso a bens, serviços, oportunidades de trabalho e lazer oferecidas pelas áreas urbanas. Se o objetivo da mobilidade é facilitar a forma como nos deslocamos, melhorando a qualidade de vida da população, pensar neste assunto é pensar em como a tecnologia pode qualificar, facilitar e, também, automatizar a infraestrutura, os serviços para que isto aconteça.

As perspectivas para o futuro da mobilidade perpassam por variadas tendências, gerando sistemas cada vez mais independentes. Além do bem-estar da população, adotar novas práticas que beneficiam o meio ambiente torna-se um elemento fundamental para a construção de cidades cada vez mais inteligentes e sustentáveis.

O tema sustentabilidade se tornou inevitável para a formulação de políticas públicas e estas são essenciais para que tecnologias disruptivas e que encontram resistências iniciais possam ser fortalecidas e apoiadas.

Neste sentido, evidencia-se a importância de debater a sustentabilidade em meios de transportes e, uma das alternativas viáveis é investir em mobilidade elétrica para diminuir a poluição, tanto sonora quanto do ar. Utilizando motores elétricos, que substituem, total ou parcialmente, os motores de combustão interna, os veículos elétricos emitem menos Gases de Efeito Estufa (GEE), menos poluentes atmosféricos e geram menores níveis de ruídos que os veículos tradicionais.

Além dos efeitos positivos para o meio ambiente, a economia e a praticidade que a mobilidade elétrica do transporte promete gerar têm chamado a atenção do mundo todo, principalmente quando falamos de equipamentos elétricos como patinetes e bicicletas. O debate em torno do uso dos patinetes elétricos está acontecendo em diversos locais. No entanto, este meio de transporte ainda não é regulamentado em grande parte das localidades. Para que seu uso se torne abrangente, ainda é preciso avançar em normas específicas para seu bom funcionamento nas cidades.

No Brasil, apesar de já serem objeto de estudo do DENATRAN (Departamento Nacional de Trânsito)[1], apenas as capitais São Paulo, Florianópolis e Vitória regulamentaram o uso dos patinetes, de um total de 13 cidades que já possuem o serviço de compartilhamento no país. Recentemente, no Rio de Janeiro, foi aprovado o Projeto de Lei que regulamenta o uso de patinetes elétricos e bicicletas de aluguel no estado.

Quando o debate se volta para os carros elétricos (e híbridos[2]), destaca-se a significativa diminuição dos resíduos poluentes, a energia de fonte renovável, a melhor eficiência energética e condução mais agradável por ser bastante silencioso. Além das vantagens relacionadas à sustentabilidade, há um menor custo de manutenção e operação na utilização de carros elétricos, visto que em virtude da maior eficiência, estima-se que o custo por quilômetro para alimentar um elétrico seja consideravelmente menor do que se gasta com carros que utilizam combustíveis fósseis.

Isto é, além das vantagens relacionadas ao meio ambiente, os carros elétricos proporcionam diversos benefícios aos usuários, como economia com combustível. Diversos países já marcaram data para o fim da produção de carros movidos apenas a gasolina ou diesel. Na Noruega não será permitido colocar à venda esses carros a partir de 2025. Na Áustria e na Índia, 2030. Na Inglaterra e na França, 2040. E o Brasil? Está preparado para lidar com o aumento da frota de carros elétricos como os outros países?

Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA), a venda de carros elétricos e híbridos no Brasil cresceu 20,4% entre 2017 e 2018, passando de 3.296 para 3.970. Há uma década atrás, a venda desse tipo de veículos no Brasil era quase inexistente. Em 2008, apenas 9 carros movidos a eletricidade foram emplacados. No entanto, mesmo com o crescimento expressivo nos últimos dez anos, os carros elétricos e híbridos representam apenas 0,2% do total de vendas nesses últimos 10 anos.

Gráfico 1 – Licenciamento de carros elétricos no Brasil

Fonte: Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA)

 

Todavia, diversos entraves dificultam a aquisição, utilização e propagação dos carros elétricos no Brasil:

  • Os elevados preços de aquisição de veículos híbridos e elétricos são um desafio às suas disseminações. Este fator tem sido amenizado através de estímulos de governos oferecendo bônus e isenções para estimular compradores;
  • A autonomia dos carros elétricos ainda não é competitiva se comparada com a dos veículos tradicionais. Apesar disso, nos últimos anos, as pesquisas têm propiciado aumento na autonomia e reduzido o tempo de recarga das baterias usadas nesses veículos[3];
  • A falta infraestrutura de recarga elétrica adequada é uma barreira. As redes de carregamento rápido ainda são escassas e contam com pontos localizados muito específicos e, as vezes distantes uns dos outros. Isso faz com que não seja possível um carregamento de fácil acesso;
  • Os desafios logísticos são significativos, pois ainda não há uma cadeia logística eficiente para obtenção do lítio e dos metais raros, ou para a produção de baterias nas proximidades de cada fábrica. Isso encarece e complica o processo produtivo;
  • O alto custo com manutenção é outro entrave. Isso ocorrerá enquanto o carro elétrico for exceção, pois os reparos serão realizados apenas em rede autorizada, limitando as possibilidades de encontrar consertos mais rápidos e baratos. Seria necessário que as isenções e bônus concedidos pelos estados tivessem alcance não somente na compra, mas também na manutenção do veículo.

Visando a popularização e a economia sustentável, já se pode observar alguns estímulos específicos à ampliação dos carros elétricos no Brasil. As políticas públicas são essenciais para que tecnologias de ruptura e que encontram resistências iniciais, como os carros elétricos, possam ser fortalecidas e apoiadas.

Nesse sentido, o Brasil desenvolveu o Projeto Sistemas de Propulsão Eficiente – PROMOB-e – que prevê que até 2020 sejam criados amplos sistemas de incentivo à propulsão eficiente em energia. O PROMOB-e abrange três áreas de atuação: 1) Estratégias e Políticas Públicas; 2) Normatização e Regulamentação; e 3) Modelos de Negócio.

Além disso, alguns incentivos têm sido estabelecidos:

  • Isenção do imposto de importação (de 35% para 0%);
  • Isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) em alguns estados brasileiros;
  • Em São Paulo, veículos elétricos com bateria e híbridos também são favorecidos pela isenção do rodízio municipal.

No entanto, ao comparar com outros países, ainda há espaço para outros estímulos, tais como: a) linhas de financiamento exclusivas para aquisição de carros elétricos com juros diferenciados; b) isenção de taxas de estacionamentos e pedágios; c) permissão para trafegarem em áreas restritas para veículos coletivos.

A mobilidade elétrica ainda é incipiente no Brasil e, posto isso, ações para promover este modelo de mobilidade mais sustentável e mais eficiente são fundamentais. O Espírito Santo, por sua vez, está se inserindo nesta realidade: uma parceria entre a Findes, por meio do Senai, e a EDP criará a maior rede de estações de recarga de veículos elétricos do Espírito Santo, abrangendo sete cidades capixabas.

O primeiro posto de carregamento rápido[4] do Espírito Santo foi inaugurado em Vitória, no dia 02 de junho, na Praia de Camburi. Além deste, no último dia 18, foi inaugurado em Venda Nova do Imigrante um posto de recarga de veículos elétricos. Até o final do ano, segundo a EDP, haverá postos de carregamento de carros elétricos em Cachoeiro do Itapemirim, Guarapari, Linhares, São Mateus e Nova Venécia.

A mobilidade elétrica é, portanto, uma tendência global por ser mais eficiente e sustentável. Os carros elétricos podem contribuir de forma relevante com a redução na emissão de CO2. Contudo, a infraestrutura ainda é a chave para o crescimento deste mercado. Além disso, ainda temos uma série de problemas legais e burocráticos que praticamente inviabilizam a comercialização em larga escala dos modelos elétricos. O Espírito Santo adentra nesta realidade através de uma nova forma de pensar as cidades, colocando o estado em evidencia nacional e contribuindo para o ciclo de mobilidade sustentável.

 

Referências Bibliográficas

Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA). Anuário da Indústria Automobilística Brasileira. Brazilian Automotive Industry Yearbook. São Paulo, Janeiro/2019.

EDP Brasil. EDP e Findes inauguram posto de recarga de veículos elétricos na Praia de Camburi. Acesso em: <http://www.edp.com.br/noticias/edp-e-findes-inauguram-posto-de-recarga-de-veiculos-eletricos-na-praia-de-camburi>.

[1] Existem regras gerais determinadas pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), mas cabe a cada município regulamentar a circulação desse veículo de mobilidade.

[2]  O carro híbrido combina a boa autonomia e potência do motor a combustão com a menor emissão de poluentes e economia do propulsor elétrico.

[3] Há uma necessidade de refletir acerca do descarte ou reciclagem dessas baterias.

[4] Com ele é possível carregar em apenas 30 minutos 80% da bateria do carro.

 

Mayara Bertolani é economista, mestre pela Ufes e analista do Ideies.

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