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Desafios para o comércio exterior capixaba: dinamismo, conteúdo tecnológico e agregação de valor


por Vanessa Avanci e Marcelo Saintive

O comércio exterior tem papel fundamental para o desenvolvimento econômico do Espírito Santo, um dos estados com maior grau de integração à economia mundial do país[1]. Para se ter uma ideia, as exportações capixabas em 2018 alcançaram 8,84 bilhões de dólares, valor equivalente a 27,0% do PIB do estado. Também é característico das exportações do Espírito Santo a especialização em uma pequena variedade de bens e, particularmente, em commodities (minério de ferro, óleo bruto de petróleo, café, entre outros). A combinação entre o elevado grau de abertura da economia e concentração das exportações em uma cesta de commodities pode influenciar negativamente a renda interna, pois a alta volatilidade dos preços (termos de troca) destas no mercado internacional acaba gerando instabilidade interna, em especial em relação aos investimentos (Williamson et al., 2004).

Sabe-se que a competitividade internacional de uma economia depende, entre outros fatores, do padrão de especialização das exportações pela diferença de ganhos econômicos associada a determinados produtos de maior valor agregado. A indústria de alto conteúdo tecnológico (setor aeronáutico e aeroespacial; farmacêutico; informática; equipamentos de rádio, TV e comunicação; instrumentos médicos de ótica e de precisão) corresponde a atividades de maior complexidade, e que envolvem elevado conteúdo científico e investimentos em P&D. Essas atividades produtivas de maior intensidade tecnológica têm um potencial mais elevado do que as atividades agrícolas ou ligadas a recursos naturais de gerar desdobramentos para a economia como um todo (Hausmann et al., 2007). Para além da diversidade de produtos na pauta exportadora, a presença daqueles com alto conteúdo tecnológico indica também o nível de desenvolvimento econômico (Feenstra e Kee, 2008) e o grau de complexidade econômica relativo de um país (Hausmann et al., 2011).

Dessa forma, as exportações de maior conteúdo tecnológico e maior agregação de valor são considerados mais dinâmicas e, portanto, aumentar a participação destas na pauta é tido como fundamental para o desenvolvimento econômico de longo prazo. Além disso, a participação de produtos manufaturados e de maior valor agregado na pauta de exportações pode reduzir a vulnerabilidade da economia frente aos choques externos.

Recentemente, Espírito Santo tem sido beneficiado pelo movimento dos preços internacionais que impulsionaram o crescimento das exportações capixabas. De acordo com dados da Funcex, foram dois aumentos seguidos no índice de preços da pauta de exportações capixaba: na comparação de 2018 com 2017 subiu 12,4% e de 2017 com o ano anterior a alta foi de 23,1%. Enquanto que a quantidade exportada em 2018 apresentou queda de 2,5% e em 2017 ela se manteve no mesmo patamar em relação ao ano anterior. Assim, o crescimento das exportações capixabas em 2017 e 2018 pode ser explicado, majoritariamente, por um movimento de alta dos preços internacionais dos bens exportados.

Gráfico 1. Exportações, importações e saldo comercial, Espírito Santo

Fonte: Ministério da Economia. Elaboração Ideies.

 

Dado que os preços internacionais estão sujeitos a tantas flutuações, o resultado de superávit comercial positivo baseado em um aumento dos preços internacionais é também uma posição de fragilidade para a economia capixaba. Para melhor avaliar o desempenho do Espírito Santo no comércio exterior foi calculada também a taxa de comércio por intensidade tecnológica, dada pela razão entre o valor exportado e importado em cada categoria.

Os valores de exportações e importações foram separados de acordo com a classificação das atividades econômicas pela intensidade tecnológica (gastos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) sobre a produção)[2] em quatro categorias: alta tecnologia, média-alta tecnologia, média-baixa tecnologia e baixa tecnologia. Quando a taxa de comércio de uma categoria é superior à unidade, isso indica que foram gerados saldos comerciais positivos e, no caso de valores inferiores à unidade, aponta que ocorreram déficits comerciais.

Os setores do Espírito Santo que alcançaram resultado superavitário no comércio internacional estão na categoria de produtores de baixa e média-baixa intensidade tecnológica, enquanto que as taxas de comércio nos setores de média-alta e alta tecnologia foram inferiores à unidade em todo o período considerado. Mesmo nos setores de média-baixa e baixa intensidade tecnológica a taxa de comércio em 2018 foi inferior à de 2017, reduzindo o superávit.

 

Gráfico 2. Taxa de comércio (X/M) dos setores industriais por intensidade tecnológica, Espírito Santo

Fonte: Ministério da Economia. Elaboração Ideies.

 

A carência de setores industriais competitivos na produção de bens de consumo duráveis e bens de capital no Espírito Santo é evidenciada pelos déficits no comércio exterior de bens de média-alta e alta tecnologia em todo o período. O estado capixaba está importando muito mais desses produtos, necessários para seus processos produtivos internos, do que está produzindo e exportando. Essa situação é semelhante ao quadro observado para a pauta nacional, em que os déficits nos produtos com médio-alto e alto conteúdo tecnológico estão relacionados à uma estrutura produtiva menos concentrada em setores tecnológicos[3].

Neste contexto, deve constituir objetivo das políticas industrial, comercial e de inovação do país inserir os produtos nacionais nos mercados mundiais mais dinâmicos, de maior conteúdo tecnológico e agregação de valor. Do contrário, acordos comerciais com países que atuam na fronteira tecnológica, ou seja, que possuem vantagens comparativas em segmentos da indústria e dos serviços intensivos em tecnologia, em relação aos setores brasileiros podem desidratar a estrutura industrial interna ao gerar um viés de seleção para indústria menos intensivas em tecnologia no país.

Em outro estudo[4] já foi identificado que a economia capixaba possui setores com potencial de crescimento, sendo possível diversificar a pauta exportadora, reduzindo a vulnerabilidade aos movimentos dos preços internacionais das commodities pela exportação de produtos com maior grau de intensidade tecnológica. Pensando no longo prazo, o projeto Indústria 2035 no Espírito Santo representa um plano de desenvolvimento para o estado, cuja coordenação é da Federação das Indústrias do Espírito Santo, que identificou, a partir de uma ampla consulta com atores da sociedade, gestores públicos, industriais e pesquisadores, os setores com maior potencial para tracionar o crescimento econômico com foco em inovação e tecnologia. Esse plano de desenvolvimento tem por objetivo orientar a sociedade e os segmentos econômicos quanto às tendências de futuro tecnológicas e de negócios e contribuir para decisões de investimentos e políticas públicas que aspirem a um novo ciclo de desenvolvimento para o Espírito Santo.

[1] Estudo Especial “Exportações do Espírito Santo (1997-2017)” publicado pelo Ideies em agosto de 2018.

[2] Classificação de Intensidade Tecnológica SIIT/OCDE.

[3] Para análise do Brasil consultar Chiarini, Tulio; da Silva, Ana Lucia Gonçalves. Comércio exterior brasileiro de acordo com a intensidade tecnológica dos setores industriais: notas sobre as décadas de 1990 e 2000. Nova Economia, v. 26, n. 3, p. 1007-1051, 2016.

[4] Estudo Especial “Exportações do Espírito Santo (1997-2017)” publicado pelo Ideies em agosto de 2018.

 

Vanessa Avanci é analista de Estudo e Pesquisa do Observatório da Indústria (Ideies)

Marcelo Saintive é Diretor Executivo do Ideies.

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