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A economia circular no mundo fashion


Por Jordana Teatini

Nos últimos anos, as empresas do mercado fashion passaram por mudanças significativas. Se antes o lançamento das coleções se davam nas famosas estações primavera-verão e outono-inverno, nos dias atuais algumas marcas chegam a lançar coleções semanalmente. Com tantas novas opções de consumo, o descarte dos artigos de vestuário se tornou uma preocupação frequente da sociedade. É neste contexto que a economia circular se revela como uma tendência de um novo modelo de produção, que visa minimizar o impacto no meio ambiente da produção, do uso e o descarte dos produtos. Na indústria da moda, esta tendência significa reaproveitar as peças já usadas – e que, provavelmente, tornariam resíduos – durante o processo de confecção de novos artigos.

De acordo com a Fundação Ellen MacArthur, a economia circular é baseada em três princípios: planejar os resíduos e a poluição; manter os produtos e os matérias em uso, e regenerar os sistemas naturais. Resumidamente, a economia circular passa pela estratégia de remanufaturar os bens a partir do reparo e reutilização dos produtos, minimizando assim, o desperdício final e durante o processo produtivo.

Juntamente com outros stakeholders, a Fundação Ellen MacArthur sugere uma iniciativa chamada “Make Fashion Circular” que, através das colaborações entre as empresas líderes de mercado e outros atores importantes, reformula a economia têxtil. Neste entendimento, a indústria fabrica roupas e calçados com materiais seguros e renováveis, assim como inova nos modelos de negócios, os quais beneficiam não somente as empresas, mas também geram externalidades positivas para a sociedade e o meio ambiente. No relatório “A new textiles economy: redesigning fashion’s future”, a Fundação elabora um modelo de economia circular para a indústria têxtil, sintetizado no seguinte esquema:

Figura 1 – Ambições para uma nova economia têxtil1


Fonte: relatório “A new textiles economy: redesigning fashion’s future” (p. 23). / Fundação Ellen MacArthur.

[1] Fase 1: Não utilizar as substâncias poluentes. Fase 2: aumentar a utilização das roupas. Fase 3: aprimorar radicalmente a reciclagem (absorção anaeróbica e compostagem; outros fluxos de material). Fase 4: fazer uso efetivo dos recursos e insumos renováveis e fazer a transição para insumos renováveis (matéria-prima de fonte renovável).

O relatório traz o argumento de que uma nova economia têxtil requer mudanças sistêmicas, alto nível de comprometimento, colaboração, inovação e alinhamento das partes envolvidas. Neste contexto, muitas empresas da indústria têxtil e calçados já assumiram a preocupação com as fontes de matéria prima e as destinações dos resíduos oriundos dos processos produtivos e dos consumos de seus produtos.

Na edição de 2019, o Global Change Awards nomeou 5 ganhadores, originários de países distintos, que repartiram um prêmio no valor de 1 milhão de euros. Os vencedores inovaram, das mais diversas formas, quanto às possibilidades de mudanças sustentáveis aplicáveis a esta indústria. Como por exemplo, em primeiro lugar, a empresa alemã The Loop Scoop desenvolveu um sistema digital que orienta os designers do setor como projetar peças assumindo a intenção prévia de recicla-las, ou seja, uma inovação nas premissas da economia circular.

Outras marcas consolidadas no mercado vêm investido em pesquisa, desenvolvimento e inovação para apresentar soluções e produtos ambientalmente sustentáveis. A marca Everlane já colocou à venda seus tênis esportivos compostos por borracha natural reciclada – no lugar do plástico. A Adidas vem trabalhando na primeira linha de tênis de corrida 100% reciclável. Após a utilização do produto, que é feito com um único tipo de material, os consumidores o devolvem para a fábrica, que fará o processo de lavagem, transformação em pelota, derretimento e enfim, a confecção de um novo tênis. A varejista H&M lançou coleções de roupas que utilizam materiais de diversas fontes: fibras naturais provenientes de fibras de celulose das folhas de abacaxi, cascas de laranja utilizadas para suco, e espuma feita a partir de biomassa de alga.

Nesse sentido, a economia circular é uma nova oportunidade de negócio e desenvolvimento para as empresas que estão em busca de um processo produtivo sustentável, em meio à alta velocidade com que os produtos são comercializados no mundo da moda. Tendo em vista que a moda não é uma regra, e sem a ousadia de pensar em extinguir um modelo de negócio amplamente dizimado na economia mundial, aparece o desafio: é possível sustentar o Fast Fashion, ou a moda rápida, na economia circular?

Os clientes, cada vez mais, têm se questionado sobre a origem e processo de produção de suas vestimentas, e vêm priorizando aquelas marcas sinceras quanto a este processo e, sobretudo, se são ambientalmente sustentáveis. Além da própria marca, os demais ativos intangíveis relacionados ao marketing têm se tornado um grande canal de inovação que conecta as ações das empresas com aquelas preferências dos consumidores. Em outras palavras, a transparência da marca quanto ao seu processo produtivo, às relações comerciais e de trabalho, exprime uma confiança que aproxima o consumidor e o investidor.

Desenvolvido pela Fashion Revolution Brasil em parceria com o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGVces), o Índice de Transparência da Moda Brasil se revela como um instrumento de monitoramento público das práticas adotadas na cadeia produtiva do setor. A primeira edição deste índice no Brasil ocorreu em 2018, e foram pesquisadas 20 marcas e varejistas relevantes nos segmentos de confecções e calçados. A pontuação média geral da amostra pesquisada foi de 17%, o que significa que, de acordo com a Fashion Revolution, ainda há um longo processo rumo à transparência.

Conquistar e permanecer em uma posição no mercado fashion, hoje em dia, significa garantir um compromisso com o meio ambiente e com a sociedade. Aquela indústria que outrora fora responsável pelos avanços tecnológicos, que culminaram na supremacia da Revolução Industrial, vai permanecer com uma boa parte locked in[1] em um sistema não mais comportado pelo planeta, ou vai alinhavar seus setores para tecer um futuro sustentável?

 

Fontes:

ADIDAS: https://www.adidas.com/us/futurecraft

EVERLANE: https://www.everlane.com/tread?utm_source=pepperjam&utm_medium=2-112671&utm_campaign=120661&clickId=2670918595

FASHION REVOLUTION: https://www.fashionrevolution.org/brazil-blog/transparencia-e-tendencia-indice-de-transparencia-da-moda-brasil/

FUNDAÇÃO ELLEN MACARTHUR: https://www.ellenmacarthurfoundation.org/

GLOBAL CHANGE AWARDS: https://globalchangeaward.com/about-the-award/

SEBRAE: http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/artigos/fast-fashion-ganha-destaque-no-varejo-de-moda,ef695d27e8fdd410VgnVCM1000003b74010aRCRD

VOGUE: https://www.vogue.com/article/hm-conscious-collection-sustainable-alternative-fabrics

[1] Trancado em um modelo que se perpetua automaticamente.

 

Jordana Teatini é economista, mestre pela Ufes e analista do Ideies.

Os conteúdos e as opiniões aqui publicados são de inteira responsabilidade dos seus autores. O Sistema FINDES (IDEIES, SESI, SENAI, CINDES e IEL) não se responsabiliza por esses conteúdos e opiniões, nem por quaisquer ações que advenham dos mesmos.

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